domingo, 24 de maio de 2015

Os desenhos são formas de conhecer as crianças em suas condições sociais, culturais e históricas

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“Aprendi que é possível conhecer meninas e meninos, desde bem pequenos, a partir dos e com os seus desenhos”. A constatação é da professora da Universidade de São Paulo (USP), Marcia Gobbi, ao relembrar como se deu sua aproximação com o universo dos desenhos infantis, um de seus principais temas de pesquisa.
Créditos: Reprodução
Créditos: Reprodução
O início desse trajeto remete ao tempo em que ela era professora de educação infantil na cidade de São Paulo, atuação que a aproximou das crianças e de suas criações. No entanto, a percepção apurada sobre os desenhos infantis implicou em um exercício de sociologia de “estranhar o que é familiar”, como explica. “O fato dos desenhos estarem presentes não significa que os vejamos, que tenhamos olhares mais aguçados e preocupados com eles. Naturalizamos sua presença entre nós e isso é algo perverso, uma vez que, com isso, deixamos de efetivamente olhar para o que comunicam”, avalia.
O estranhamento, segundo ela, é condição para que se possa imaginar, problematizar o que constitui o cotidiano e é aparentemente natural. “Com isso, os traços e linhas infantis
ganham importância e se torna possível vaguear pelas retas e curvas, passeando por elas e aprendendo com elas”, o que julga fundamental. “Quando olhamos atentamente para essas produções  começamos a compreendê-las em suas práticas e lógicas infantis e perceber que há diferenças a partir dos contextos e condições de criação, sendo possível observar diferenças e marcas de classes sociais, gênero, étnico raciais, entre outras”.
Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral, a professora fala mais sobre o papel dos desenhos no desenvolvimento integral de crianças e reforça que compreender essas produções diz de um movimento de sair do “confortável lugar adultocentrado e se relacionar a partir de perspectivas horizontais de relações humanas”. Confira!
Centro de Referências em Educação Integral: O que os desenhos representam para as crianças?
Marcia Gobbi: Várias são as pesquisas que se ocupam de conhecer os desenhos em distintas abordagens. Eu diria que para sabermos o que os desenhos representam para as crianças é necessário perguntar para elas. Não, não estou sendo indelicada!! Porém, nos esquecemos de perguntar e observar as crianças enquanto desenham. Somos acostumados a recolher os desenhos e considerá-los apenas em seu produto final, deixando o processo de lado. Com isso, a riqueza das escolhas e conquistas das crianças enquanto desenham são pouco vistas ou consideradas em sua plenitude.
Ainda assim, é importante que os desenhos sejam vistos e discutidos entre as crianças e por elas, por que não? Desse modo podemos começar a saber o que os desenhos representam para as meninas e meninos. Será que é a mesma coisa? As meninas desenham e valorizam os desenhos do mesmo modo que os meninos? Há condições sociais que ora consideram mais a uns que a outros?
Várias pesquisas têm nos mostrado a importância dos desenhos para as crianças como forma de orientar seu pensamento sobre o papel. O desenho pode ser visto como uma pesquisa pessoal das crianças desde pequenas e, como tal, representam conquistas, ensaios em que mundos são imaginados e criados sobre diferentes suportes e não apenas o papel. Sabe-se que são vários os locais sobre os quais desenham e as paredes, chão, areia, terra, azulejos não escapam disso e esses diferentes suportes materializam de maneiras diversas aquilo que cada criança pesquisa, experimenta, inventa e cria.
CR: E o que eles dizem sobre as crianças?
Marcia: O que os desenhos dizem sobre as crianças? Muito. Como já mencionei anteriormente são formas de conhecê-las de modo profundo em suas condições sociais, culturais, históricas. Os desenhos criados pelas crianças em 1930, no Brasil, são iguais àqueles elaborados hoje em dia, no mesmo país? Há um processo de transformações históricas, sociais, culturais e econômicas que criam diferentes contextos de criação.
As crianças, como atores sociais que são, sujeitos e ativas nesse processo, apresentam suas marcas ao longo da criação e não somente no resultado final. Em meu doutoramento, tomando a liberdade de trazê-lo como exemplo, em que estudei os desenhos das crianças dentro do acervo de desenhos do poeta Mário de Andrade,  que está no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e é composto por mais de dois mil desenhos guardados desde 1926 até 1945, podemos observar essas transformações das quais falei.
Quando considerados na relação com os dias atuais podemos ver desde o desaparecimento das margens – frutos de modelos escolares e suas imposições – até mesmo temáticas próprias de um período, bem como, as conhecidas casinhas portuguesas que hoje já não têm tanto peso nos desenhos feitos pelas crianças.

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